Bartender embarcado – ep2
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Cruzeiro mediterrâneo - Viagem Nomadismo Digital como bartender embarcado

E foi ali, naquele universo flutuante, que me deparei com uma realidade perturbadora: o alcoolismo. Logo no primeiro dia, a oferta de cerveja gratuita para a “manutenção do alcoolismo” era um presságio do que viria. Com acesso irrestrito a todos os tipos de destilados, desviar bebidas para consumo próprio tornou-se uma tentação constante. A linha tênue entre a saúde física e mental se desfez, e a sensação de que não havia mais volta, de que eu estava preso em um ciclo vicioso, era avassaladora.

Após o primeiro período de trabalho, encontrei refúgio na área de fumantes, compartilhando latas de “San Miguel” com meu responsável direto. Aquele espaço delimitado, onde podíamos beber e fumar entre os turnos, e onde um grande cinzeiro tubular servia para esconder um saco de lixo com as bebidas, tornou-se um ponto de encontro, um oásis em meio à rotina exaustiva.

Era também para esse local que eu me dirigia quando a sirene tocava nos treinamentos de evacuação. A urgência de vestir o colete salva-vidas e me posicionar o mais rápido possível, responsável por direcionar os clientes para a área dos botes, era uma rotina que já me havia sido antecipada no porto de Santos, durante o treinamento para profissionais marítimos (STCSW). A vida em alto mar, com suas exigências e peculiaridades, é, de fato, para poucos. Uma aventura profissional que se transformou em um aprendizado de vida profundo, mas que me deixou uma certeza: nunca mais embarcarei a trabalho. Essa é uma declaração que faço com a clareza de quem viveu e aprendeu, e que ecoa a intensidade das experiências vividas.A tripulação de um cruzeiro é um microcosmo da diversidade social e cultural do mundo, um reflexo vibrante de diferentes nações e realidades. Em sua grande maioria, são sobreviventes, indivíduos que carregam consigo as problemáticas sociais inerentes às suas classes, alguns impulsionados pela necessidade de um contrato, outros pela sede de aventura. Essa convivência intensa e multifacetada me proporcionou um aprendizado imenso sobre as relações interpessoais e profissionais, uma experiência que, acredito, foi intensificada pelo ambiente confinado e desafiador de um trabalho a bordo.

Mediterraneo - Viagem Nomadismo Digital

Viver essa realidade marítima me fez repensar o universo do restaurante e do atendimento de uma forma profunda. Muitos desses profissionais, impossibilitados de uma inclusão social e profissional em terra, especialmente latinos e centro-americanos, encontravam apoio em suas problemáticas correligionárias e similaridades. No entanto, essa união muitas vezes se manifestava de formas corruptas e perniciosas, relativizando comportamentos de todas as espécies e buscando realizações pessoais a bordo. Nós, latino-americanos, sem uma saída evidente, nos sujeitávamos às piores condições de trabalho, com responsáveis coniventes com todo tipo de comportamento. Eles se esforçavam para manter seus empregados, pois reformular as equipes e encontrar novos funcionários que aceitassem as condições era quase impossível, uma vez que a temporada já havia começado.

Desde o início, deparei-me com um alcoolismo generalizado. No trabalho, com total acesso ao bar, os destilados estavam à mão. Testemunhei o tráfico de álcool desde o primeiro dia, festas e relações com clientes, brigas e confusões a bordo. Era um ambiente único, uma sociedade flutuante que, por vezes, assemelhava-se a uma prisão flutuante. Contudo, em meio a esse caos, as paisagens eram de tirar o fôlego, e o mundo parecia se abrir para minhas curiosidades. As conversas à beira do balcão, com pessoas de tantas nacionalidades, eram um convite à prática intensa da expressão e à escuta de histórias cuja veracidade, até hoje, questiono. Eram encontros efêmeros, que, se não fossem aproveitados naquele pequeno período de tempo, não teriam chance de um esclarecimento posterior, uma volatilidade que pode estimular mal muitas pessoas.

Tudo a bordo era determinado pelos interesses e pelas curiosidades que nos guiavam. Alguns anseios básicos nos impulsionam, sem questionar, como necessidades existenciais profundamente enraizadas em nossa humanidade. Poucos são aqueles que conseguem revolucionar o autocontrole para dominar o espírito e conquistar o que vem depois. Como já havia mencionado, eu carregava alguns maus hábitos e continuei a praticá-los a bordo. Havia vivido uma paixão recente em minha cidade e trabalhava com a expectativa de um reencontro, mas o alcoolismo me tranquilizava enormemente nas duras jornadas de trabalho e nas frustrações que surgiam. Uma companheira de trabalho logo se tornou minha confidente, e, pela primeira vez, consegui entender algo que nunca havia compreendido: não existe amizade pura entre homens e mulheres, não sem uma regulação cuidadosa do ambiente, das relações interligadas e das pessoas envolvidas. Esse espaço, nossa área de interação e encontros, estava sempre acompanhado de algum tipo de álcool. Interagíamos, bebíamos e fumávamos, com o mar como nosso horizonte na maioria das vezes. Estávamos entre ingleses, espanhóis, centro-americanos, latinos, indianos, cingaleses e muitas outras origens.